Miopia na infância: controlo e prevenção

Miopia na infância: controlo e prevenção

Nos dias de hoje, com a crescente utilização de ecrãs e um estilo de vida predominantemente indoor, a miopia tornou-se uma das principais preocupações na oftalmologia pediátrica. A miopia, vulgarmente conhecida como “dificuldade em ver ao longe”, tem vindo a aumentar em prevalência e gravidade a um ritmo alarmante. No entanto, é fundamental perceber que a miopia não é uma condição estática, e existem estratégias eficazes para a controlar e, até certo ponto, prevenir a sua progressão. 

Este artigo procura desmistificar a miopia infantil, explicando o que é, as suas causas e, mais importante, as opções de controlo e o papel crucial que o estilo de vida desempenha na sua gestão. 

O que é a Miopia?

Em termos simples, a miopia é um erro refrativo em que a luz que entra no olho não é focada diretamente na retina, mas sim à sua frente. Isto faz com que os objetos distantes pareçam desfocados, enquanto a visão ao perto é geralmente boa. 

A miopia pode ser causada por um alongamento excessivo do globo ocular ou por uma curvatura demasiado acentuada da córnea ou do cristalino. Em crianças, a miopia tende a progredir com o crescimento, o que significa que a graduação dos óculos aumenta ao longo do tempo. É esta progressão que preocupa os oftalmologistas, pois uma miopia alta na idade adulta está associada a um risco acrescido de patologias oculares graves, como descolamento da retina, glaucoma e maculopatia miópica. O objetivo do controlo da miopia não é apenas melhorar a visão da criança no presente, mas também proteger a saúde ocular no futuro. 

Causas e Fatores de Risco: A Ligação entre Genética e Ambiente

A miopia não tem uma única causa, mas sim uma combinação de fatores genéticos e ambientais: 

  • Genética: O fator de risco mais forte é ter pais míopes. Se um dos pais é míope, o risco para a criança é cerca de três vezes maior. Se ambos os pais são míopes, o risco aumenta para cerca de seis vezes. No entanto, a genética não é um destino. A influência ambiental é determinante. 
  • Fatores Ambientais e de Estilo de Vida: Aqui reside o maior potencial de intervenção. O estilo de vida moderno, caracterizado por longos períodos de visão ao perto (uso de ecrãs, leitura, trabalhos escolares) e pouca exposição à luz natural, tem-se mostrado como um forte contribuinte para o aumento da miopia. 
  • Tempo ao ar livre insuficiente: A exposição à luz natural de alta intensidade tem um efeito protetor contra o desenvolvimento e a progressão da miopia. Estudos demonstram que passar 2 horas ou mais por dia ao ar livre pode reduzir significativamente este risco, mesmo que a criança passe tempo a ler ou a usar ecrãs. 
  • Tempo ao perto prolongado: O esforço constante de focagem ao perto, definido como atividades realizadas a uma distância inferior a 30cm, parece ser um estímulo para o crescimento do olho, levando à miopia. 

 

O Mito dos Óculos e a Importância da Intervenção

Um dos mitos mais comuns sobre a miopia é a ideia de que “os óculos vão fazer com que a graduação aumente mais rapidamente” ou que “a criança vai ficar habituada”. Na realidade, o oposto é verdade. Um mito a desmistificar é o de que não se deve receitar a graduação toda. Estudos demonstram que não receitar a graduação total aumenta a velocidade de progressão da miopia. Deixar de usar a correção visual quando ela é necessária pode levar a um maior esforço e, potencialmente, a uma maior progressão da miopia. A prescrição de óculos é o ponto de partida, mas não é a solução definitiva para o controlo da miopia. 

A abordagem moderna passa por intervir ativamente para abrandar a progressão da miopia. 

Estratégias de Controlo da Miopia: Além dos Óculos Convencionais

O controlo da miopia não se limita à prescrição de óculos convencionais. Existem várias opções de tratamento cientificamente comprovadas para abrandar o aumento da graduação: 

  • Óculos de controlo da miopia: Ao contrário dos óculos convencionais, que corrigem a visão apenas no centro, estes óculos especiais têm um design periférico que reduz o estímulo para o crescimento do olho. Corrigem a visão central com precisão, mas têm zonas de desfocagem na periferia, o que parece ser um estímulo eficaz para abrandar a progressão. 
  • Gotas de atropina em baixa concentração: Este é, atualmente, o tratamento farmacológico mais eficaz para o controlo da miopia. A atropina, numa concentração muito baixa, é aplicada diariamente nos olhos. O mecanismo exato de como atua não é totalmente conhecido, mas sabe-se que ajuda a abrandar o crescimento do globo ocular. É um tratamento seguro e eficaz, com poucos ou nenhuns efeitos secundários. 
  • Lentes de contacto de controlo da miopia: Existem lentes de contacto de uso diário e noturno que também utilizam o mesmo princípio de desfocagem periférica. 
  • Lentes de contacto diárias: São lentes que a criança usa durante o dia. São uma opção para crianças mais velhas e adolescentes responsáveis. 
  • Ortoqueratologia (Orto-K): São lentes de contacto de uso noturno. A criança dorme com as lentes, que moldam a córnea durante a noite, corrigindo a miopia. A sua eficácia é variável, sendo muito eficaz em cerca de 40% das crianças e com pouca ou nenhuma eficácia em cerca de 25%. É, contudo, importante referir que o risco de queratite infeciosa com estas lentes é cerca de 10 vezes superior ao risco de esta ocorrer com lentes de contacto tradicionais. 

 

O Papel do Estilo de Vida: A Grande Aposta na Prevenção

Ainda que os tratamentos de controlo sejam essenciais, a intervenção mais poderosa é a mudança de hábitos. 

  • Tempo ao Ar Livre: Passar tempo ao ar livre, com exposição à luz natural, é a intervenção mais simples e eficaz. Estudos demonstram que passar cerca de 2 horas ou mais por dia ao ar livre pode reduzir o risco de desenvolver miopia e abrandar a sua progressão. 
  • Regras 20-20-20: Para atividades de perto, como ler ou usar o computador, recomenda-se que, a cada 20 minutos, a criança olhe para um objeto a cerca de 20 pés (6 metros) de distância durante 20 segundos. Isto ajuda a relaxar os músculos de focagem do olho e reduz o esforço acomodativo. 
  • Postura de Leitura e Ecrãs: É importante manter uma distância adequada entre os olhos e o objeto de foco. Recomenda-se uma distância mínima de 30-40 cm. 

 

Conclusão: O Controlo da Miopia é um Compromisso para o Futuro

A miopia na infância não deve ser encarada como uma simples necessidade de usar óculos. É uma patologia progressiva com potencial impacto na saúde visual a longo prazo. A abordagem moderna e proativa ao controlo da miopia, combinando tratamentos eficazes e mudanças no estilo de vida, é a chave para garantir que as crianças de hoje tenham olhos mais saudáveis no futuro. A consulta com um oftalmologista pediátrico é o primeiro passo para criar um plano de controlo individualizado, adaptado às necessidades de cada criança. 

Perguntas frequentes

Com que idade aparece a miopia nas crianças?

Apesar de poder acontecer, é rara antes dos 6 anos. Surge sobretudo em idade escolar e tende a aumentar até ao fim da adolescência.

O trabalho de perto aumenta o risco de miopia?

Sim. Passar muitas horas a ler, a fazer trabalhos de casa ou a usar tablet ou telemóvel é um fator de risco para o aparecimento e o agravamento da miopia. O risco é maior quando os olhos ficam a menos de 30 cm do livro ou do ecrã e há poucas pausas. Recomenda-se manter livros e ecrãs a pelo menos 30–40 cm, fazer pausas regulares a olhar ao longe (por exemplo, 20 segundos a cada 20 minutos) e equilibrar o tempo de perto com pelo menos 2 horas por dia ao ar livre.

É possível travar a miopia infantil?

É possível abrandá-la com lentes próprias para controlo da miopia (óculos ou lentes de contacto) e com colírio de atropina em baixa concentração, a par de mais tempo ao ar livre. O plano é individual.

Os óculos fazem aumentar a miopia?

Não. Usar a correção adequada não agrava a miopia; ver mal sem óculos também não a trava.

Quanto tempo devem as crianças passar ao ar livre?

Pelo menos 2 horas por dia. A luz natural tem um efeito protetor.

Ver todas as perguntas frequentes →

Tem dúvidas sobre a visão do seu filho? Consulte os locais, horários e contactos para marcação de consulta.

Aviso: este artigo tem fins exclusivamente informativos e não substitui uma consulta médica. Cada criança deve ser avaliada individualmente. Em caso de dúvida ou perante sinais de alerta, consulte um oftalmologista.

partilhe em
Facebook
LinkedIn
WhatsApp
Email
Picture of Dr. Renato Santos Silva

Dr. Renato Santos Silva

saber mais

Subscreva a Newsletter

Não perca todos os Artigos e Notícias