Ver para além do olhar: a avaliação oftalmológica em crianças neurodivergentes (PHDA e autismo)

Avaliação oftalmológica de crianças neurodivergentes

A prática da oftalmologia pediátrica revela que cada criança é um universo único. Quando se abordam crianças neurodivergentes, como aquelas com Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) ou dentro do espectro do autismo, a avaliação da visão torna-se um desafio particularmente gratificante, exigindo uma abordagem verdadeiramente personalizada. O objetivo primordial é garantir que estas crianças vejam o mundo da melhor forma possível, adaptando o processo avaliativo às suas necessidades individuais. 

Um Olhar Atento a Cada Perfil

É fundamental compreender que, embora existam pontos comuns, a PHDA e o autismo apresentam características próprias que influenciam a forma como a criança interage e se sente confortável durante a consulta. 

Em crianças com PHDA:

  • A atenção pode ser mais dispersa e a impulsividade mais acentuada. É comum que demonstrem dificuldade em manter o foco em tarefas monótonas ou em aguardar pela sua vez. 
  • A estratégia adotada visa tornar a consulta dinâmica, rápida e interativa. São utilizados jogos visuais e reforço positivo para manter o interesse e a colaboração. O ambiente é concebido para ser animado, mas sem distrações excessivas. 

Em crianças no Espectro do Autismo:

  • A sensibilidade sensorial pode ser mais acentuada, seja à luz, a sons ou ao toque. Ambientes novos e pessoas desconhecidas podem gerar maior ansiedade. 
  • A comunicação das necessidades visuais pode constituir um desafio. Por conseguinte, prioriza-se a previsibilidade e a rotina. Cada passo é explicado, frequentemente com apoio visual (fotografias ou sequências de imagens), para que a criança saiba o que esperar. O espaço é mais calmo, com iluminação suave e menos ruído, para evitar sobrecarga sensorial. A consulta é flexível e, se necessário, pode ser dividida em mais do que uma sessão. 

 

Para Além do Comportamento: As Patologias Oculares

É relevante notar que algumas condições oftalmológicas podem ser mais frequentes em crianças neurodivergentes: 

  • Estrabismo: Embora não seja mais comum na PHDA, o estrabismo é mais prevalente em crianças no espectro do autismo. 
  • Erros Refrativos (necessidade de óculos): São frequentes em crianças com PHDA (mas não acima da média geral), e apresentam uma elevada prevalência no autismo. 
  • Ambliopia (“Olho Preguiçoso”): O risco de ambliopia é aumentado em crianças com autismo, frequentemente devido à maior prevalência de estrabismo. 
  • Perturbações da Perceção Visual: Podem ser pontuais e associadas à atenção na PHDA, mas são mais comuns no autismo, onde a integração visual pode estar alterada. 

 

Um Compromisso com o Diagnóstico Fiável e um Futuro Mais Claro

A importância de cada detalhe é compreendida. O foco reside em adaptar a avaliação aos perfis comportamentais, sensoriais e comunicacionais de cada criança. A chave para o sucesso reside em motivar a criança a colaborar. Com sensibilidade e as técnicas adequadas, é possível obter a informação clínica necessária em quase todos os casos, minimizando o stress e a ansiedade para a criança e para os pais. 

Garantir um diagnóstico fiável é fundamental para promover o desenvolvimento e o bem-estar visual da criança, permitindo-lhe ver e interagir com o mundo da forma mais plena possível. 

Tem dúvidas sobre a visão do seu filho? Consulte os locais, horários e contactos para marcação de consulta.

Aviso: este artigo tem fins exclusivamente informativos e não substitui uma consulta médica. Cada criança deve ser avaliada individualmente. Em caso de dúvida ou perante sinais de alerta, consulte um oftalmologista.

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Dr. Renato Santos Silva

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